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[50ª Mostra de São Paulo] Eu Vejo Edifícios Caírem Como Raios (I See Buildings Fall Like Lightning, 2026)

Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.


Quando os créditos finais rolaram, apareceu uma citação de Keiran Goddard, autor do romance de mesmo nome do qual o filme foi adaptado. Infelizmente não a encontrei em lugar nenhum lugar, nem consegui anotar adequadamente, mas era algo como dedicando às merendas, às bolsas, aos auxílios, às bibliotecas e escolas públicas, e a tudo mais que o manteve, que foi um luxo, mas o único luxo que importa. Eu, que já estava chorando, me derramei em lágrimas. Agradeço cada caneca de sopa e cada prato de arroz com feijão de merenda, cada livro emprestado da biblioteca da minha escola municipal, cada hora do ensino das minhas professoras, cada centavo gasto na minha educação e cada bolsa que me foi garantida ao longo desses anos, que me levou do interior do Salto Weissbach (SC), eu que quando criança achava que nunca ia ver nenhuma cidade fora do sul, ao mestrado, ao doutorado com estágio na Itália, agora ao pós-doutorado, sempre em universidade pública, sempre com bolsa. Nessa, semana, mais do que em outras, tudo fica em perspectiva.

Essas políticas públicas não são tema do filme diretamente. O roteiro adaptado por Enda Walsh traz como protagonistas cinco personagens que cresceram juntos e agora enfrentam as durezas da vida adulta, suas vidas em crise, o mundo ao seu redor desmoronando. Pat (Anthony Boyle) é um entregador de aplicativo por bicicleta e depois de pedalar o dia todo, com sorte consegue ganhar umas 40 e poucas libras. Ele é casado com Shiv (Lola Petticrew), com quem namora desde os 15 anos. Ela cuida das duas filhas dos dois e da sua mãe. Oli (Jay Lycurgo) fazia bicos vendendo drogas, mas está tentando se endireitar e começa a trabalhar na construção civil. Conor (Daryl McCormack) subiu um degrau na vida que todos levam e trabalha como uma espécie de encarregado na construção de um novo edifício que está gentrificando a região. Mas isso, aliado ao nascimento de seu primeiro filho somam mais pressão do que parece aguentar. E por fim, Rian (Joe Cole) é o que o deu certo na vida, investindo em ações, ficou milionário, foi morar em Londres e hoje é investidor no prédio em que Conor trabalha. Ele vive um equilíbrio tênue entre ainda querer pertencer àquele lugar (mas já não fazer parte dele) e nunca integrar realmente o mundo dos ricos. E claramente não sabe se abrir a respeito de suas emoções.

A história começa no aniversário de 31 anos de um deles, jovens mas já deixando os anos mais inocentes da juventude para trás. Agora a responsabilidade, a família, o emprego e a estabilidade dividem espaço com esses arroubos da adolescência que compartilharam juntos, a cerveja e as drogas ainda presentes. A trilha do filme é certeira em conduzir a sensorialidade e quando necessário, o grave intensifica a batida nos levando para dentro da festa do quinteto, vibrando as poltronas. A montagem dinâmica de Maya Maffioli acerta no ritmo das imagens que acompanham o pancadão. A visão do passado do bairro aparece na viagem lisérgica: quando os conjuntos habitacionais foram demolidos para abrir espaço para a especulação imobiliária, caíram como raios.

Mais para frente Pat diz que foi ali que uma geração perdeu o sonho do direito por moradia, a mesma geração que está trabalhando no aplicativo e que está doando seu salário para enriquecer gente como Rian. É um dos únicos momentos em que o filme deixa escapar um certo didatismo. Mas ele vem em uma briga tão acalorada entre os dois personagens, tão de acordo com o contexto de ambos, que, afinal, faz total sentido. Porque esse é um dos grande méritos da obra: essas pessoas parecem pessoas reais. Elas são muito críveis, elas fazem sentido narrativo, elas têm lógica, os diálogos funcionam, bem como as dinâmicas entre elas. Ponto para a cineasta Clio Barnard, que consegue tecer um retrato de juventude da classe trabalhadora que não é nada caricato, com um direção forte e enérgica.

Destaque para a cachorrinha Lola, que faz parte do arco de mudança de Oli, que passa a repensar suas próprias ações. Já para Conor, o nome da sua empresa, Dedalus, foi como uma profecia: construiu uma asa de pena e cera que foi usada para voar perto demais do sol. A quebra de quarta parede do personagem confere peso dramático às suas ações.

Clio Barnard conseguiu orquestrar um conjunto de grandes atuações nesse grupo de talentos, que faz esse mundo parecer tão vívido nos trinta e poucos anos cheios de problemas desses personagens. Com o capitalismo corroendo suas vidas, a amizade (e um pouco de festa) às vezes é o pouco que sobra. É triste, mas pode ser lindo também. Há um senso de familiaridade na construção de um cinema tão real. Eu Vejo Edifícios Caírem Como Raios é um exercício profundo de empatia cinematográfica com a geração retratada, mas que pode se estender para outras também, espelhadas ali.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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