Cinema,  Críticas e indicações

[50ª Mostra de São Paulo] Breves Comentários

Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.


O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning, 2026)

Na sequência de A Rede Social (The Social Network, 2010) o diretor- roteirista Aaron Sorkin acredita estar fazendo um comentário inteligente sobre jornalismo e redes socieis, mas na verdade o resultado é constrangedor. As cena do jornalista Jef (Jeremy Allan White) e sua fonte, a engenheira Frances (Mikey Madison), funcionária do Facebook que vaza documentos internos, são até vagamente interessantes, mas Jeremy Strong como Mark Zuckerberg é robótico e péssimo. O timing da narrativa é completamente equivocada, com a pandemia, a invasão do Capitólio, e uma espécie de final grandiloquente com uma revelação bombástica de que os algoritmos do Facebook privilegiam conteúdo de extrema direita. E aí tu fica tá, e daí? Cinco anos depois, Zuckerberg continua bilionário, o Facebook segue existindo e ainda essa semana a Meta anunciou interferência nas eleições brasileiras. Esse final é pra ser como se algo estivesse resolvido? Porque definitivamente não foi.

Minotauro (Minotaure, 2026)

Com direção de Andrey Zvyagintsev, o filme é uma nova versão de A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol, que por sua vez já havia sido refeita em 2002 como Infidelidade, com Richard Gere e Diane Lane nos papeis principais sob a direção de Adrian Lyne. Dessa vez o marido Gleb (Dmitriy Mazurov) é um empresário que desconfia que a esposa, uma dona de casa chamada Galina (Iris Lebedeva), está tendo um caso, mas não sabe ainda com quem. A trama ganha camadas de comentários políticos com o pano de fundo da guerra da Rússia. Muitos aspectos sobre masculinidade são esboçados: revidar brigas na escola, como se portar em guerra, o valor dos veteranos, divorciar e casar com uma mulher mais jovem, a ameaça do amante. Existe um certo humor, mas no geral a atmosfera é fria, e em comparação com Lyne há uma total ausência de erotismo. O relacionamento não é uma expressão de culpa burguesa, mas também não é uma exteriorização aberta de desejo, apesar de frustração ser esboçada constantemente. Como filme, é um exercício interessante, mas que fica no meio caminho. Crítica completa da Natália Bocanero de nossa cobertura em Cannes aqui.

A Morte Não Tem Dono (La Muerte no Tiene Dueño, 2026)

Uma tentativa de vã de registar um delírio pós-colonial, escrita e dirigida por Jorge Thielen Armand. Nele, Caro (Asia Argento) retorna para a fazenda de produção de cacau de seu pai na Venezuela após anos na Itália. Descobre que Sonia (Dogreika Tovar), uma mãe solo e Maiko (Yermain Sequera), seu filho habitam sua mansão abandonada, que ela deseja vender e avalia em 1 milhão de dólares. O diretor tenta ao máximo explorar a estética do casarão no meio da floresta e as camisas de botão de Caro, com suas botas e chapéu de chapéu de coronel em pleno 2026. Uma personagem chega mesmo a dizer “só falta o chicote, mas as coisas mudaram por aqui”. Em uma espécie de Bacurau reverso, espere todo tipo de violência contra corpos subalternizados, com imagens estetizados, como se servisse de discussão sobre o direito à terra. A sequência final parece ter sido sacada à fórceps com a intensão de criar algum tipo de crítica irônica.

Um Dia na Vida de Jo: Capítulo Fedra (Mia Mera sti Zoi tis Tzo: Kefalaio Faidra, 2026)

Um filme de crescimento que se passa em Atenas, na Grécia, escrito e dirigido por Jacqueline Lentzou, em que a protagonista é a jovem Jo (Evita Andriopoulou), de 15 anos. A narrativa opta por capturar momentos banais da rotina da idade, como a menina não conseguindo se adaptar à rotina escolar, se rebelando contra a mãe, depredando patrimônio familiar, sendo tímida nas interações sociais, até que conhece Fedra (Anastasia Gouliamou), outra menina de seu coral. Fedra é meio nerd, não é afeita à tecnologia, ouve música antiga, mas canta lindamente, e Jo parece desenvolver um crush pela outra. A trama pouco se movimenta para além de parcas interações entre adolescentes com diálogos rasos. Alguns elementos cênicos se repetem para fins simbólicos. Até que, em uma saída noturna da personagem, uma virada acontece e o filme assume ares não só metalinguísticos, como metafísicos. Virou A Viagem, do pior jeito possível.

Chicas Tristes (2026)

Chicas Tristes (2026)

Nesse filme delicado, escrito e dirigido por Fernanda Tovar, duas amigas de 16 anos, Paula (Darana Álvarez) e Maestra (Rocio Guzmán) fazem parte do time de natação do México que está treinando para os jogos Panamericanos juniores, torcendo para conseguirem uma vaga e conseguirem viajar para o Brasil. A saudável competição entre as jovens é entremeada pela pelas expectativas românticas, quando vão a uma festa e Maestra diz a um garoto que Paula está interessado nele, intermediando o lado da amiga. No outro dia, se depara com o silêncio da mesma ao saber que ela teve sua primeira relação sexual com o menino. É interessante como o filme mostra o desconforto, o medo de engravidar, tudo tão presente ainda em 2026. Mas o que Paula demorou a compartilhar é que na verdade tratou-se de um estupro. A constatação leva a posturas diferentes. Maestra quer enfrentamento, Paula quer deixar para trás. Entre falta de acolhimento e piedade nem sempre as reações dos adultos são as esperadas. As decisões são difíceis demais para a idade retratada mas a sensibilidade da diretora nos transporta para a sequência de eventos de forma emocionante. Impossível não querer abraçar essas garotas tristes nesse filme lindíssimo. Crítica completa da Camila Henriques de nossa cobertura em Tribeca aqui.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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