[50ª Mostra de São Paulo] Mulher Desconhecida (Woman Unknown, 2026)
Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.
Na Dinamarca, logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, Marie (Mathilde Arcel) trabalha como babá e vai se casar com o seu patrão, Christian (Carsten Bjørnlund), um rico dono de fábrica de luvas. Todos ao seu redor pensam que ela é uma pessoa desprovida de laços, cujos pais já morreram. O que ela esconde é que no passado, durante a guerra, havia sido expulsa de casa por esse mesmos pais, que na verdade ainda estão vivos, por ter engravidado de um soldado alemão durante a ocupação. O filme é dirigido por May el-Toukhy e escrito por ela em parceria Maren Louise Käehne. A cineasta já havia dirigido Rainha de Copas, outra obra que lida com uma protagonista com ações moralmente questionáveis em um drama denso.
Aqui, os atos de Marie começam na problemática do ocultamento. Ela precisa ocultar sua identidade para proteger a vida confortável que a promessa de matrimônio lhe trará. Mas a tensão se constrói porque o filme aos poucos desvela a hipocrisia da sociedade em torno dela. A diretora é habilidosa em nunca nos entregar detalhes sobre essa passado: não sabemos se essa criança, que já morreu, foi concebida de forma consensual ou não, se houve um relacionamento ou se foi algo causal, qual foi o contexto. Mas pouco importa. O que sabemos é que para os dinamarqueses, todo o horror do nazismo é culpa das mulheres.
Constrói-se tensão quando vemos a resistência recebendo denúncias de mulheres que tiveram relações com alemães sendo arrastadas às ruas, seus cabelos sendo cortados, seus corpos desnudos, suásticas vermelhas pintadas em seus troncos. O vermelho da bandeira da Noruega é um elemento muito presente na direção de arte, até mesmo nas roupas de Marie. Ela testemunha essas torturas acontecendo com algumas dessas mulheres, como o constante lembrete de que, qualquer deslize que cometa, pode ser ela mesma a próxima. Como quando reencontra Karl (Thorbjørn Hedegaard), um jovem de sua cidade natal que a reconhece e passa a chantageá-la.
A hipocrisia se dá porque vemos homens trabalhadores, consequentemente pobres, sendo presos por terem colaborado durante a guerra. Vemos, também, as mulheres sendo torturadas. Mas os homens ricos saem ilesos. Marie comenta que seu noivo, por exemplo, vendia suprimentos para os alemães. Ele, tão honrado, afirma que preservou empregos e manteve pessoas alimentadas. Para eles são as mulheres que são as responsáveis pelas mortes de milhares de pessoas, ele não tem relação nenhuma. E realmente, sua posição se mantem inabalada.
Conforme o filme avança Maria se torna cada vez mais preocupada e paranoica, com um medo patente de ser descoberta. Por isso se torna cada vez mais errática e é capaz de fazer atos mais questionáveis para se manter segura, não sem ser assombrada, também, pelo sentimento de culpa. Uma atuação incrível de Arcel, que consegue nos fazer vivenciar a ebulição de sentimentos da personagem debaixo da superfície. Não a toa, além do Leão de Ouro, o filme venceu o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza.
A narrativa escancara não só a justiça, mas o senso de moralidade seletivo que guia a nação no pós-guerra. O resultado é denso e o questionamento é incômodo (como no filme anterior da cineasta). O último frame, que retrata Marie encarando um espelho, partida, como um monstro dual, é assombroso. Mulher Desconhecida não é um filme fácil de digerir, mas é marcante pelo impacto de sua qualidade narrativa.




