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[50ª Mostra de São Paulo] Mulheres da Revolução (Women of Revolution, 2026)

Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.


O documentário Mulheres da Revolução (Women of Revolution, 2026) nasce quando a cineasta iraniana Mina Akbari recebe uma multa por supostamente dirigir sem hijab. Acontece que essa é uma acusação da qual ela não tem como se defender, uma vez que não há imagens para contestação. Assim, ela teve o seu carro apreendido, precisou pagar uma multa, e precisaria, ainda, um curso sobre religião mais adiante do momento em que já estava filmando esses acontecimentos.

Então resolveu fazer o filme sobre a disputa da questão do véu dentro do país depois da Revolução Islâmica que aconteceu em 1979. Mais que uma peça de roupa, é um campo de discussões políticas. Para isso, mostrou uma linha do tempo dos acontecimentos em torno dele, demonstrando que mesmo depois da revolução, seu uso não era obrigatório. Eram poucas as mulheres legisladoras naquele momento, e mesmo as mais religiosas não desejavam que ele se tornasse uma peça de lei, por diversos motivos.

A diretora abarca as discussões que aconteceram de 1979 em diante, as manifestações, as prisões, as execuções, tudo isso em torno de algo que se tornou mais uma questão ideológica do que religiosa. Ela entrevistou inúmeras iranianas com os mais diversos posicionamentos. Como o acesso ao estudo universitário é muito majoritário, é impressionante como a maioria delas são doutoras, até as mais religiosas. Uma delas pontua que a polícia de costumes se incomoda com o uso incorreto do hijab por estrangeiras não muçulmanas, mas quando prende uma mulher muçulmana que usa o hijab e descobre seu cabelo, não se preocupa em cobri-lo novamente, apontando a hipocrisia patente nas ações, que, afinal, não estão preocupados nem com o uso do véu, nem com a cobertura dos cabelos.

A maior parte das entrevista foi gravada em 2021 e a própria cineasta foi pega no contrapé dos acontecimentos. Ela já estava montando o documentário quando ocorreu o assassinato, em 2022, de Mahsa Amini, pela polícia dos costumes por não estar usando hijab. Sua morte levou a manifestações pelo mundo todo e virou símbolo da luta das mulheres iranianas. Ela precisou pausar por alguns anos a finalização do filme para entender o impacto e os desdobramentos disso, que virou uma espécie de post scriptum do próprio documentário. Mulheres da Revolução é um filme correto, mas interessante para entender o que está acontecendo no país.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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