[50ª Mostra de São Paulo] O Último Batedor de Carteiras (The Only Living Pickpocket in New York, 2026)
Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.
Logo na sequência vemos Harry (John Turturro) executar sua arte com extremo primor: ele desliza os dedos pelos bolsos de outras pessoas que também transitam pelos metrôs da cidade de Nova York e furtivamente transfere o seu conteúdo para seu sobretudo de tweed que já viu dias melhores. O vestir é antiquado: casacão pesado, sapatos polidos com sola de couro, relógio de pulso de metal antigo de boa qualidade. A profissão, se podemos chamar assim, também está em extinção. O ganho do dia rende uma carteira sem dinheiro dentro (afinal quem anda com dinheiro de papel nos dias de hoje?), alguns trocado, várias tranqueiras eletrônicas que ele vai vender em uma casa de penhor e um relógio falsificado. Ben (Steven Buscemi), o senhor com quem faz negócios, lhe diz que pouca gente tem relógios bons, porque todo mundo tem relógios hoje em dia, até um microondas. Para que investir? (olho para meu relógio de borracha verde e me pego pensando).
Escrito e dirigido por Noah Segan, o filme se debruça sobre essa geração cujo modo de vida está ficando para trás. Não é apenas porque Harry é batedor de carteira. Ele não tem celular e não se conecta ao mundo de hoje, mas o mesmo acontece com Ben, que precisa de ajuda de sua colega mais jovem, Eve (Victoria Morales). Ele usa um computador grande e é ela quem coloca suas coisas para vender na internet.
E Harry, por sua vez, faz tudo que faz tentando ajudar sua esposa acamada Rosie (Karina Arroyave). Ele parece cansado, apesar das faíscas eventuais de humor da narrativa. As coisas se intensificam quando ele, sem saber, rouba Dylan (Will Pryce), um jovem que pertence a uma grande família de mafiosos. Possesso, ele precisa de um cartão USB que estava entre os itens que foram suprimidos, e Harry, que já vendeu tudo, vai precisar fazer uma maratona para recuperá-lo. Nesse ponto o filme mostra a linha tênue de colaboração e respeito entre pessoas que cometem pequenos delitos, como Harry e policias como o Detetive Warren (Giancarlo Esposito), que podem se beneficiar mutuamente de informações tiradas das ruas, em uma troca que também remonta a um tempo passado, em uma cidade que provavelmente não existe mais.
O filme funciona como uma espécie de homenagem à cidade de Nova York, passando por diversos de seus bairros, citando suas particularidades, com o protagonista andando a pé ou de metrô por muitos lugares e com a músicas na trilha como New York, I Love You but You’re Bringing Me Down, I Happen to Like New York, e Native New Yorker. Ele é preenchido pelo charme de Turturro, mas uma ótima aparição de Tatiana Maslany é sempre uma boa surpresa. Há algo com um quê de locação setentista que casa com a atmosfera melancólica de tempo que está acabado. Mas a trama vai resvalando em um sonho americano agridoce, em que tudo é possível, com o dinheiro ao alcance das mãos, menos escapar do desacato à máfia. Trata-se de uma narrativa não só sobre uma profissão que está em extinção, mas sobre uma geração envelhecendo, seu código de honra, seu modo de vida e sua cidade.




