[79º Festival de Cannes] Titanic Ocean
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
Em determinado momento de Titanic Ocean, um instrutor orienta suas alunas a “suavizar o coração” e “libertar a mente”. A frase, repetida várias vezes no decorrer do filme, seja por outros personagens, seja no interior dos pensamentos da protagonista, Deep Sea (Arisa Sasaki), poderia soar como mero discurso motivacional de autoajuda, não fosse o contexto fílmico: a busca pelo autocontrole como ferramenta para aprimorar a capacidade de respirar embaixo d’água em uma academia profissional de… sereias.
Dirigido por Konstantina Kotzamani e exibido na mostra Un Certain Regard do 79º Festival de Cannes, Titanic Ocean é ambientado em uma academia profissional de sereias, cuja finalidade é formar performers para atuar em um gigantesco aquário. Acompanhamos jovens em treinamento para se tornarem celebridades aquáticas em um universo de espetáculo, estímulo de fantasias e exploração comercial. A diretora constrói uma atmosfera letárgica e suspensa, ritmada no compasso aquático que é intensificada pela fotografia azulada, pelos sons abafados pela submersão, pela amplificação da respiração e uma trilha sonora etérea que remete a ideia oceânica e de profundidade. Tudo no longa remete à água e flutua em estado líquido.
De fato, a água em Titanic Ocean dita, além da estética, o estado emocional das personagens, em contínuo estado meditativo e introspectivo que contrasta com um incômodo difuso e uma insatisfação generalizada que as atrai para as profundezas de algo próximo à depressão – embora esta jamais seja explicitada, é bastante sugerida. Muito dessa oscilação decorre das cobranças associadas à busca pela perfeição. As jovens são observadas, classificadas e julgadas. Participam de concursos, precisam manter padrões corporais rígidos e se submetem ao olhar de mulheres e, sobretudo, de homens responsáveis por determinar seu valor profissional.
Coabitam nessas personagens, portanto, o anseio pela fama e pelo reconhecimento como “sereias” do mundo real – e, assim, como enigmáticos objetos de admiração – e o desejo de abandonar o universo claustrofóbico do aquário para, simbolicamente (e aqui começam os excessos), transformarem-se em tsunami e libertarem-se no vasto e revolto oceano. O filme transmite uma ironia cruel no modo como as jovens são treinadas para parecerem perfeitas e serenas, quando na realidade carregam tristezas silenciosas e silenciadas.
Titanic Ocean começa a demonstrar certa dificuldade em lidar com a própria premissa e com sua riqueza estética à medida que passa a apostar suas fichas no romance e na hipertrofia de símbolos. Deep Sea é a mais reservada entre as sereias e possui uma evidente dificuldade de comunicação com o mundo exterior. Internamente, porém, carrega um poder sobrenatural de seduzir, manipular e estabelecer conexões que ultrapassam a racionalidade – capacidade que desperta, inclusive, a descoberta de sua voz de sereia. É por meio desse domínio que ela consegue seduzir o treinador Kotaro (Masahiro Higashide), por quem é apaixonada. Nessa esteira, o filme se mostra perspicaz quando projeta nesse vínculo o próprio mito da sereia, da mulher capaz de enfeitiçar e conduzir os homens. No entanto, a relação assume contornos obsessivos e passa a funcionar como uma distração diante da busca por autonomia que não se justifica.
Além de subaproveitar sua própria fantasia, Titanic Ocean desconfia da própria estranheza. Embora acumule alegorias e imagens vigorosas, ao trazer mulheres confinadas em aquários, ondas que remetem à força feminina, águas-vivas como símbolos de sexualidade, sonhos e o sentimento de afundamento, a narrativa sente necessidade de explicar aquilo que já está compreendido visualmente, alternando momentos genuinamente hipnóticos com saturação de narração e didatismo.
É o que ocorre, por exemplo, com o oceano, que, já presente no título e na visualidade aquática do filme, é também uma evocativa enfática demais. O mar representa o medo, o desconhecido, a ameaça associada ao fim do mundo e à falta de controle, e conforme a protagonista assume-se sereia, passa a adquirir o significado ou sinônimo de libertação. Entretanto, a insistência em verbalizar o imagético vai se tornando progressivamente incômoda.
É notório que Titanic Ocean não consegue equilibrar suas ambições fantásticas com seus caminhos melodramáticos. Frustra o modo como a diretora sabota as próprias qualidades fílmicas ao abraçar uma cafonice que não é fiel sequer ao mito no qual se fundamenta. Dessa forma, quando se permite habitar a estranheza de seu próprio conceito, a obra encontra caminhos provocativos e até inquietantes. No entanto, quando tenta traduzir tudo isso em mensagens literais demais e romances de contornos um tanto juvenis, aproxima-se de uma sensibilidade novelesca que o reduz à mediocridade. Assim sendo, Titanic Ocean transita entre os signos de aprisionamento e liberdade, entre a disciplina do corpo e o desejo pulsante, mas, outrossim, entre uma ideia promissora e sua gradual transformação em um romance obsessivo e um tanto cafona.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.


