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Filmes de Eunice Gutman na Mubi

Publicado originalmente em 26/03 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.


Chegou na Mubi uma coleção de curtas metragens de Eunice Gutman, que descortinam um panorama da sobre a sociedade brasileira da década de 1980 majoritariamente por meio de retratos feitos de recortes sob a perspectiva de mulheres.

Em seu primeiro curta. E o mundo era muito maior que a minha casa, de 1976, fala sobre o programa de alfabetização MOBRAL e as novas possibilidades que o acesso as letras incutiam nas pessoas retratadas. 

Só no Carnaval…, de 1982, é um filme intrigante, ao retratar o machismo dos homens cis héteros que se fantasiavam de mulheres em blocos de carnaval no Rio de Janeiro. Mas no afã de capturar essa crítica, falha em perceber pelas bordas a presença queer que vicejava nesse espaço e é alvo da crítica feminista em igual medida pelas feministas entrevistadas. Elas enxergavam ali uma caricatura feminina, nas suas palavras, da mesma forma, e não uma subversão. Um retrato da época è revelia de si mesmo. 

Já Vida de Mãe é Assim Mesmo?, de 1983,é de uma tristeza ímpar. O filme se inicia com um parto em que a mãe não olha para a criança recém nascida quando essa lhe é apresentada. Depois vem o contexto: a mãe também é uma criança, vítima de estupro. A data, anterior à constituição de 1988, não lhe garantiu aborto legal (nem assim hoje é possível, muitas vezes, não é…). Em sua curta duração, o filme retrata as duríssimas penas que a jovem mãe e sua mãe, agora avó, passam para lidar com a chegada do bebê na família, numa sociedade que nega toda acolhida nesses casos. 

Em Duas Vezes Mulher, de 1985, Gutman colhe o relato de duas moradoras distintas de uma comunidade do Rio de Janeiro, vizinhas de porta. falando de suas trajetórias, trabalhos e vivências. 

Mas o seu filme mais marcante é sem dúvida Mulheres: Uma Outra História, de 1988. Ele acompanha diferentes mulheres envolvidas com a Constituinte de 1988, desde aquelas que marchavam nas ruas reivindicando a incorporação de direitos como o acesso ao aborto legal, no texto da lei, àquelas que faziam parte da comissão no Congresso. O filme conta com imagens potentes das manifestações, depoimentos de anônimas e de figuras da política de então que perduram como Bete Mendes, Jandira Feghali e Benedita da Silva, esta última com um discurso contundente Dentre os 559 assentos, 26 eram ocupados por mulheres, e aí se tem como as pautas específicas dos direitos das mulheres foram tratadas, qual seu espaço na constituição. Em certo momento do filme eu estava emocionada pensando: elas estavam lutando por coisas que nós não temos até hoje, 40 anos depois. E aí entra uma senhorinha, da época do sufrágio falando: essas moças hoje lutam pelo mesmo que nós lutávamos 50 anos atrás. Ou seja, é um século de gritos ecoando, 30 vozes em 600 na política institucional, milhares na rua e nada. É impossível não se emocionar com um filme que é histórico mas é sobre hoje. As falas são das retratadas, famosas e anônimas, são puro suco de 2026. E as eleições vêm aí. 

O conjunto da obra de Eunice Gutman é muito significativo: um retrato de um Brasil do passado, mas que ainda existe. Sem dúvida uma diretora para se se conhecer. 

Temos um podcast onde Camila e Rosana discutiram também sobre Mulheres: Uma Outra História.
Os filmes estão disponíveis para streaming na Mubi.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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