[Festival de Londres 2026] O Bosque Selvagem (Wildwood, 2026)
Esse texto faz parte da cobertura do BFI London Film Festival, que ocorre entre 7 e 18 de outubro de 2026.
Conhecido pelo primor de suas animações quadro a quadro, o estúdio Laika se dedicou por dezesseis anos à produção de O Bosque Selvagem (Wildwood, 2026), desde sua concepção até seu lançamento. Adaptado de um livro de mesmo nome escrito por Colin Meloy, a direção ficou a cargo de Travis Knight, que já havia trabalhado no belíssimo Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings, 2016), além de fazer um desvio para os filmes com atores com grandes orçamentos Bumblebee (2018) e Mestres do Universo (Masters of the Universe, 2026), que compõem uma filmografia no mínimo curiosa. Mas a trama, dessa vez, tem um quê de contos de fada.
Em uma das sequências iniciais temos uma pista que não se trata de uma animação para crianças. Um menino está em um quarto em um castelo e se dirige para um enorme balcão. Lá, ele chega perto da borda e, num momento de enorme dramaticidade, arranca o próprio peito revelando o interior com um coração maquínico, repleto de engrenagens. Perturbado e aflito, ele transpõe o parapeito e se joga lá do alto, acabando com sua vida artificial. A sequência toda é linda, sombria e perturbadora.

Logo descobrimos em um flashback que sua mãe é Alexandra (Carey Mulligan), senhora daquele castelo e ele, Alexei, havia morrido na floresta e seu corpo nunca foi encontrado. Incapaz de superar o luto, ela se envolveu com todo tipo de magia, pode-se dizer que se convertendo em uma bruxa, para criar uma espécie de réplica shelleyana de seu filho. Mas a criaturinha resultante do processo não suportou o fardo de descobrir sua própria natureza artificial. A partir daí, a mulher que não consegue concretizar o sonho da maternidade novamente e será capaz de qualquer vilania para conseguir uma outra criança para chamar de sua, agindo aos moldes da história de Rapunzel.
É assim que, anos depois, ela rouba o irmãozinho Mac (Arthur Knight) da heroína Prue (Peyton Elizabeth Lee), uma menina de 13 que vai partir em uma jornada floresta adentro para reencontrá-lo. E Prue descobre que anos antes seus pais (Maya Erskine e Jake Johnson) estavam desesperados porque seu casamento era muito feliz, mas eles não conseguiam engravidar. Então encontraram com uma bruxa, que veio a ser Alexandra, que lhes prometeu uma gestação, desde que lhe entregasse o segundo filho. No calor da animação, eles concordaram, e combinaram entre si que só teriam um filho, até que por acidente, engravidaram pela segunda vez. Então tecnicamente Alexandra não roubou Mac, só estava pegando o que lhe foi prometido.



Aparentemente na Protland onde se passa o filme, não existe sistema de adoção. Entendendo que a narrativa está trabalhando nessa lógica do conto de fada e que parte da adaptação de um material pré-existente, ainda assim é difícil assimilar a ideia de uma mulher, em 2026, tão perturbada pela ideia da maternidade, que fará qualquer coisa para realizá-la, incluindo trazer infelicidade aos demais e roubar crianças. Isso quando até a ideia da madrasta má já foi há muito descontruída e mesmo filmes como Malévola (Maleficent, 2014) desmontam a imagem de “vilã de contos de fada”.

O fato de Prue ser uma heroína e liderar o grupo de simpáticos heróis poucos convencionais que se junta para derrotar Alexandra é o mínimo esperado. Em certo momento vemos um grupo de camponeses se despedindo de suas esposas, pegando ancinhos e enxadas e outros instrumentos agrícolas e indo para a guerra contra a bruxa, enquanto as mulheres ficam dentro de casa. Uma imagem muito antiga e ultrapassada, que me faz pensar nesses dezesseis anos de concepção do filme, que viu passar Valente (Brave, 2012), Frozen (2013), e outras heroínas de animação que mudaram a forma de conceber a presença feminina nesse tipo de história. A essa altura a ideia de que as personagens femininas, mesmo figurantes, devem ficar em casa, deveria parecer superada. Só não é mais antiga do que o próprio conceito literal de caça à bruxa.

Após esses poréns, é preciso exaltar o cuidado técnico e a escala de produção colocada na obra. Dezesseis anos de preparo? E você percebe em cada segundo de cada cena. Os detalhe dos cenários com seus móveis e objetos que indicam que há vida ali e os figurinos de Deborah Cook, em que são perceptíveis as texturas dos tecidos, tudo alimenta um senso de vivacidade que é raro de se ver em uma animação. O próprio movimento quadro a quadro (stop motion) tem uma fluidez esmerada.
Os personagens coadjuvantes, como Curtis (Jacob Tremblay), Rex (Richard E. Grant), Iphigenia (Tantoo Cardinal), a General (Angela Bassett), Maksim (Tom Waits), Septima (Awkwafina), Niamh (Amandla Stenberg) e Brendan (Mahershala Ali), entre outros, somam carisma à trama, num elenco de voz afinado. A Prue é uma heroína fácil de simpatizar no processo e sua jornada de crescimento, amarrada com de seu amigo Curtis, é orgânica.
E em se tratando de escala, impressiona o confronto final e só possível imaginar quanto tempo foi necessário para criar uma batalha envolvendo tantos bonecos em uma batalha em campo aberto, escudo contra escudo, com a presença de catapultas e outras armas. Aí novamente percebe-se a classificação indicativa, com a violência visível, que não é estilizada, e até mesmo o sangue derramado na cena, tudo com grande intensidade. O que se vê é algo que se imagina em um épico filme de guerra sendo encenado em uma animação com bonecos em escala 1:50. Parece impossível de realizar e o resultado é mesmerizante.
Apesar de alguns elementos narrativos ultrapassados, trata-se de um filme que diverte e emociona. É impossível não se maravilhar com a beleza da produção e não admirar a força do trabalho manual que cada pessoa colocou ao participar de uma obra como essa. É fato que em 2026 nós não precisamos mais caçar bruxas como entretenimento, e essa ideia já deveria estar superada. E talvez a maior questão seja justamente que a história em si é um pouco aquém do talento do elenco e o dos artistas envolvidos no feitio do filme. Mas em tempos em que se discute tanto o uso de inteligência artificial gerativa e onde fica o trabalho dos artistas em Hollywood, é um sopro de ar fresco observar cada detalhe do que foi feito em O Bosque Selvagem.




